Catedral de Campinas

CATEDRAL DE CAMPINAS: UM SINAL DE ALERTA!

“E a vida continua…”. É assim que sempre dizemos depois de uma decepção, de uma perda ou de uma tragédia. Mas não podemos esquecer que “a vida nos ensina” também.

O fato ocorrido na Catedral de Campinas nos impactou e, de alguma forma, ligou em nós um sinal de alerta. A vida social vem nos apontando desafios, tanto no convívio familiar, quanto nas relações humanas em geral, dando sinais de fraqueza, de convalescimento psíquico e de uma violência estarrecedora. A vida urbana vem nos confinando em um estilo de vida desumanizante. Basta olharmos ao nosso redor e nos deparamos todos os dias com a miséria, com a pobreza, com o abandono. Isso mesmo: na fragilidade das relações familiares, o resultado é o abandono em todas as fases: crianças, jovens, idosos… não tem mais um grupo específico. Encontro muitos moradores de rua, andarilhos, gente inteligente e bem formada, mas sem ninguém, sem mesmo saber quem são: são os que se abandonaram a si mesmos. A meu ver, temos um sinal de alerta que bate a nossa porta, ou melhor, que “incomoda” nossos olhos e nossas consciências e nos provoca uma sensação de impotência diante de tantos abandonos. Mas, essa sensação também nos interpela a buscarmos respostas para essa realidade, principalmente com políticas publicas em prol dos mais necessitados.

Um segundo sinal de alerta vem tomando espaço em nossas vidas de confinados no estresse e loucura urbana. O homem que saiu atirando dentro da Igreja Catedral de Campinas não era um andarilho, não era um miserável sem casa ou sem nome. Ele faz parte de um contingente de pessoas que estão adoecidas dentro de nossos lares, mas que se tornam invisíveis aos nossos olhos ocupados com as correrias da vida.

A polícia achou um diário, diz que o autor dos tiros tinha um perfil depressivo e sentia-se perseguido. Não vou entrar aqui nos detalhes de um possível diagnóstico do quadro psíquico do atirador. O fato é que essa situação deve nos ajudar a estarmos mais acordados diante do adoecimento psíquico das pessoas ao nosso redor. Precisamos exercitar um olhar mais atento para percebermos os sinais que crianças, jovens, adultos e idosos possam estar manifestando e, agirmos com prudência e prevenção.

Prudência é aquela virtude que nos ajuda a prever e evitar perigos. Com a vida corrida e agitada, os vínculos se tornam mais frágeis e acabamos desligando nossa percepção que prevê e percebe sinais contrários a normalidade. É muito importante que nas nossas casas, nos ambientes de trabalho, na comunidade eclesial, estejamos sintonizados e de antenas ligadas para perceber que o medo, o isolamento, o silêncio, o fechamento para o diálogo podem ser sintomas de causas mais profundas.

Prevenção é exatamente o conjunto de atitudes necessárias para minimizar os conflitos e maximizar os recursos de superação do problema. São atitudes positivas que podem ajudar a evitar que o sintoma tome proporções maiores ou incontroláveis. Quanto mais formos prudentes, mais prevenidos seremos. E, muitas vezes, basta uma conversa franca, uma presença amiga, um olhar atento, um tempo a mais dedicado a quem está do nosso lado. Com esses simples gestos poderemos perceber que algo não está bem e evitarmos um mal maior, levando a pessoa, de preferência, para um profissional da área.

Em tempos que ninguém mais tem tempo para ninguém, o Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, nos pede que estejamos de lâmpadas acesas (Lc 12,35), que permaneçamos vigilantes ((Mt 24,42) e não adormeçamos (ITs 5,6) para não cairmos numa espécie de entorpecimento e sonolência (GE n.164).

O triste acontecimento na Catedral de Campinas nos leva, hoje, a chorarmos nossos mortos. Porém, ao mesmo tempo, nos impulsiona a cuidarmos melhor daqueles que estão do nosso lado, dentro de nossas casas, nas nossas Igrejas e comunidades, e estão dando sinais que não estão bem e precisam de ajuda. Vamos evitar a iminência do mal nos antecipando com o bem.

Que Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da Catedral de Campinas console todos os familiares que perderam seus entes queridos nesses últimos dias. E aos falecidos: “que a luz perpétua os ilumine, descansem em paz, amém!

Rio Grande, 17 de dezembro de 2018.

+Ricardo Hoepers

Bispo da Diocese do Rio Grande/RS

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